
Amigos,
tive que partir!
Como já disse, me esqueci no que se fazia necessário me esquecer,
estou lambendo hoje a carcaça podre do meu pai atrás da minha única verdade,
cutucando com caneta bic o crânio oco da minha vó que cisma em se remexer na cova raza na hora qual procuro sentido,
estou hoje tentando tirar de vez esta cara que não me pertence mas que agora sou eu, que agora como cola quente se gruda em meu espiríto livre.
Estou hoje perdendo o medo dos pensamentos que se dão em mim.
Estou hoje ligando de madrugada em busca do instante que já se perdeu.
Amanhã estarei bem, deliciando vidas inúteis do poço tapado de deus, entregue como sempre aos excessos, cheio de migalhas de uma noite de insônia, inspirando apesar de, minha vida.
Adeus oh Esteves! Agora sou eu que o sinto e por você me sinto,
aqui no quarto deitado que ora se desfarçava heterossexual preservando intimidades falsas,
aqui, chorando com Pessoa e me descobrindo com Clarice,
sendo eu, que é poder de ser, eu, vil, errônio, manco, sujo, irresponsável, corajoso e mau resolvido (ref),
sendo eu, que é poder de ser, eu, vil, errônio, manco, sujo, irresponsável, corajoso e mau resolvido (ref),
e ainda, também, vivendo a parte mais dura da história, mas não a dureza dos ideais que insistem como parasitas na nossa conciência e sim a dureza de quebrar seu espelho e ter como única fé a verdade.
Por favor, quando partir, deixem o resto desta matéria exposta na mesa,
olhem para ela, façam seu ritual,
que sacrifiquem os pensamentos, que bebam negligências e saboreiam suas cantigas de morte,
verão que tudo começará a se deteriorar,
verão os ossos expostos,
pobre fêmur sem pensamento que agora será molestado por ratos,
mesmo dedicado ao músculo ele se perdeu entre o que não sabia, sucumbiu a efemeridade do ato.
Antes que eu parta entenda meu amor,
alí você não está, alí naquele fêmur não está,
alí você não fica,
você vai junto,
é no pensamento que se passa em mim que está minha entrega, que está minha opção, que está meu amor, que está sua existência,
não naquele fêmur que irreconhecívelmente se deteriora sobre a mesa dos valores morais,
e é dentro de mim que existe o amor, é bem no fundo, lá dentro, tem que bater por baixo, forte, duro, está pulsando dentro deste pensamento que se dá ao seu lado e dentro de mim.
É dentro de mim que você está,
aqui você não me conhece, aqui você não se conhece, daí de fora aqui não te satisfaz,
aqui, onde sei o que sou e o que me atravessa, onde ninguém havia habitado ou ao menos conhecido, e é que sempre esteve você e que agora está vazio esperando sua volta.
posso voltar, não me procurem aqui.
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